
O estalar da chaleira quente no fogão rústico, a voz enfraquecida pelo tempo e a pele da mão lembrava papiro. Os antigos sempre contavam a história, e ela mudava conforme a amargura do café ou da nostalgia. Não ouvíamos essa parte, no entanto, estava implícito “não me lembro se foi bem assim, mas é assim que gosto de lembrar”. Hoje entendo, gosto de lembrar também, e hesito ao certo, nem sei se errado cabe-se ao certo neste caso, mera história…
Tão antigo quanto um crepitar de fogueira, muitos bravos feitos foram atribuídos ao lendário, forte, gigante e devidamente desprovido de algum (ou, provavelmente, todo) intelecto, Finn MacCoul. Herói de muitos cantos gaélicos, viveu na costa de Antrim, antes mesmo da noção de Norte, para assim designar tal Irlanda.
Talvez tantos feitos o tenham deixado como um fio teimoso em um tear aprumado, o mar tinha o mesmo cheiro, a água a mesma temperatura e a maré da costa mal mergulhava seu tornozelo. Estava entediado.
Remoendo sua estagnação e seus contos repetitivos, vislumbrou uma enorme silhueta atravessando as brumas do outro lado do estreito insular… Outro gigante! Um inimigo à altura, um oponente formidável, chance de mais um conto no seu mural de orgulhos (irredutivelmente, não era um amigo!).
Finn bradou seus desafios beirando o gutural, eufórico, ouviu mais tantos desafios em resposta, o gaélico era diferente, escocês! Que dia! Num frenesi de uma bela caçada, trocaram arremessos pantagruélicos de pedras, mesclados com provocações das mais obscenas.
O vento distorcia o som, as pedras caíram na água e, mais triste do que banho em solstício de inverno, Finn desanimou, via que o estreito não era tão estreito. Dizia-se que não queria molhar os pés, como um mantra, mas no seu âmago, lembrava que não sabia nadar.
Na outra margem, Benandonner, o gigante escocês, forte, brutal e… inerte. Procurava uma maneira de atravessar.
No último suspiro de entusiasmo, Finn foi salvo por um relâmpago em sua vasta planície intelectual: reuniria todo o basalto de que dispunha e montaria uma travessia até o outro lado. Puxou um enorme fôlego de ansiedade e bradou ao escocês sua engenhosa intensão. Puxava enormes rochas prismáticas, outrora lágrimas de fogo de fendas submersas, há muito adormecidas. Com afinco, espetava as estacas hexagonais nas profundezas salgadas, enquanto seu coração ansiava por desafios. Ao término, correu de volta para manter a moagem das cortesias horrendas e provocativas durante a travessia do inimigo.
Benandonner, caminhou exuberante pelo caminho poligonal concluído (irredutivelmente, sem admitir a criatividade do oponente). Finn, eufórico, aquecia os músculos, saltitava e aguardava o caminhar estrondoso… que logo ficou preocupante, Benandonner foi aumentando numa matemática pouco celta, era muito maior e mais forte que Finn, este, começando a engolir a saliva em vez de cuspi-la. Hesitante com o confronto iminente, não hesitou ao correr para casa em busca de sua esposa.
Oona era esperta, prática e sem paciência. Muito ágil, adornou o grande marido com vestes de bebê e escondeu ferraduras em alguns bolos rapidamente providenciados. Benandonner girou sua enorme clava e gritou por Finn. Oona o recebeu, tratando-o como um rebento mimado, desdenhando-o ríspida, “Meu marido logo virá, continue gritando inutilmente ou, se quiser, entre e coma bolo fresco enquanto cuido do bebê”.
Desconcertado e guloso, aceitou o convite soltando alguns resmungos ininteligíveis. Inegável, o cheiro delicioso de bolo recém desenformado fizera sua barriga trovejar. Recebeu o bolo e, afobadamente, enterrou os dentes na massa, numa colisão dolorosa, cuspiu um fragmento do que ele costumava gabar-se de “triturador de banquetes”. Oona riu; “Meu filho come 5 destes”. Então, num súbito de realidade, Benandonner viu um berço medonho. Um assombro o dominou, opostamente ao seu enorme tamanho, sua cabeça, num ápice de vento em popa, desenhou uma complexa constatação “se o filho é desse tamanho, imagine o pai”. Benandonner perdeu um pedaço de dente mas não perdeu tempo, correu barulhento como um vento arremetendo contra uma falésia. Seu senso de proteção era aguçado, voltou pela calçada destruindo-a às costas, para que “o pai” não o seguisse.
Finn suspirou aliviado.
